Capítulo 2 – A Salvadora

Como é que vim parar aqui, não sei. Na verdade, nem sei a razão para ter decidido sair de casa hoje. Não sei o que queria provar. Sim, Alex, vai até ao Círculo, Alex, pensei eu. Toda a gente vai e nada de mal acontece, Alex. Agora que olho para trás, apetece‑me bater em mim próprio por ter tomado essa decisão. Afinal, sou eu, é claro que isto ia correr mal.

Tudo começou bem, para ser sincero. Vesti as minhas calças de ganga favoritas, uma T‑shirt verde, umas All Star pretas completamente surradas pelo uso, pus um casaco de ganga escuro por cima e olhei ao espelho uma última vez para ter a certeza de que estava tudo bem. O cabelo caía‑me pela testa e, por mais que passasse a mão, ele voltava‑me a cair para a frente dos olhos. O maxilar parecia ainda mais pronunciado devido à pouca luz, mas os meus olhos azuis pareciam brilhar. Se devido ao medo ou à excitação, não sei.

O casaco maior que eu escondia‑me o corpo esguio, reto como um saco. Respirei fundo. Depois, foi só fazer o caminho habitual através da janela, descer pela caleira até ao chão e correr o mais rápido possível para que ele não me visse. Só parei de correr depois de um quarteirão. Tinha os pulmões a arder, a garganta a gritar por socorro, o coração a martelar‑me nos ouvidos como se fosse um tambor e sabia que precisava de parar, se não a próxima coisa a falhar seriam as pernas.

Durante o caminho, perdi a conta das vezes olhei para trás para me certificar de que não estava a ser seguido por ele. Nem queria pensar no que me aconteceria se fosse apanhado. Felizmente, não aconteceu, desta vez.

Cheguei ao Círculo. Pedi uma bebida para me tentar misturar com as restantes pessoas, mas assim que senti o cheiro ácido do conteúdo que me revolveu o estômago, serviu só como adereço na minha mão. Quase soltei um suspiro de alívio quando reparei que, pela primeira vez em muito tempo, eu não era o centro das atenções. Ninguém me estava a encarar de maneira torta, nem a olhar‑me com sangue nos olhos como se eu não passasse de um saco de pancada. Na verdade, ninguém parecia sequer reparar na minha existência! Esse facto foi incrível e a minha segunda parte favorita da noite.

A primeira foi quando ela apareceu. Cabelo castanho mais escuro que o meu, preso numa trança. Apesar de parecer alta no ringue, acho que me daria pela altura dos ombros, se estivéssemos lado a lado. A cara em forma de triângulo
invertido, os olhos amendoados e os lábios cheios que completavam a moldura, fizeram‑me desejar ter trazido o meu caderno para conseguir capturar todos os seus traços. Franzi o sobrolho quando a vejo entrar no ringue.

Nunca tinha ido ali, mas não me parecia certo ver uma rapariga a entrar num ringue com um rapaz. Na minha cabeça, aquilo só podia acabar de uma maneira, e não seria nada agradável. Tentei gritar um aviso para que saísse dali, mas foi engolido pelos da multidão. Quando o homem que estava no círculo com eles anunciou que a luta ia começar e se retirou, levei a mão livre ao peito acelerado. O lutador foi o primeiro a movimentar‑se, andando para a direita, o que fez com que ela andasse em contraponto para a esquerda, com os punhos cerrados à frente da cara.

Fiquei hipnotizado, a observar as suas movimentações. Pareciam tão… leves. Como se os seus pés mal tocassem o
chão. A sua longa trança caía pelas costas e balançava de forma leve enquanto se movia. Sustive a respiração quando a vi desviar‑se de um ataque que lhe raspou a pele do maxilar, e expirei pesadamente quando ela se desviou de um segundo murro. Senti uma pinga de suor a escorrer‑me pela testa e não sabia se era do calor ou de nervosismo em relação ao que lhe podia acontecer. Mesmo assim, ela parecia brilhar ali em cima e os meus olhos não a conseguiam largar. Eles continuaram naquele fluxo circular durante mais alguns segundos antes de, subitamente, o homem lançar o punho na direção dela. Fechei os olhos.

Não queria ver o que ia acontecer. Porém, quando a multidão continuou a rugir palavras de incentivo para que a
luta acabasse, fui obrigado a abri‑los. Ela continuava de pé! E mais do que isso, seguia escapando de todos os seus golpes! Observei‑a até que ela desferiu o golpe final e o seu oponente não se conseguiu levantar.

— Uau! — murmurei entre dentes, ainda perplexo com o que tinha acabado de ver.

Logo depois, ela foi embora e decidi que estava na hora de fazer o mesmo. Achei que a noite não podia ficar melhor que aquilo e precisava de estar em casa antes que ele notasse a minha ausência. Essa foi a minha segunda pior decisão. Assim que saí para a noite fria de novembro e passei pelo parque de estacionamento, os rapazes que não me deixam em paz na escola apanharam‑me. E agora?, penso assim que ouço passos atrás de mim. Olho para trás para encontrar o grupo habitual de cinco rapazes. O João, um rapaz encorpado com um cabelo que parecia um furão ruivo e traços faciais grosseiros, liderava o grupo, como de costume.

— Onde vais tão rápido, Alexandre? Estás com pressa porquê? — pergunta, agarrando‑me pelo ombro e puxando me de forma brusca para trás.

Sinto a dor a descer‑me pelo braço, mas é logo esquecida assim que me empurra contra a parede de alumínio. Abafo um grito. Sei por experiência própria que é melhor não fazer muitos sons de dor, porque isso encoraja‑os a serem ainda mais agressivos. Como se eles precisassem de encorajamento, penso. Estreito os olhos, para ver se isso me ajuda, e encaro os. Ainda sem saber o que fazer, começo a percorrer mentalmente as minhas opções. Fugir não é uma delas, eles são mais que eu e podiam facilmente alcançar‑me.

— Estás a planear a rota de fuga, como fazem os ratos como tu, não é? — pergunta o João em tom trocista.

Sinto o coração a martelar‑me no peito e a respiração irregular, o que dificulta a minha concentração. A única solução em que consigo pensar é ficar aqui e aguentar enquanto eles me batem, mas isso significa que, quando
chegar a casa, a probabilidade de…

— O que é que se está a passar aqui? — pergunta uma voz suave, vinda de atrás dos rapazes.

A falta de luz dificulta a minha visão, mas posso jurar que aquele cabelo preto brilhante pertence a…

— O que se passa, boneca? Estás perdida? Se quiseres, eu e os meus amigos podemos dar‑te uma ajuda — escarnece o João, num tom sardónico.

Os amigos deles soltam risos desdenhosos enquanto ele se aproxima dela. Aproveito a distração e dou dois pequenos passos em frente, para tentar ver melhor o que se está a passar. O meu coração começa a bater depressa no peito assim que reparo que a memória não me falha. É ela! A rapariga que lutou ainda nem há dez minutos no Círculo! Mas o que raio está ela aqui a fazer?

O João continua a avançar na direção dela, aparentemente alheio ao olhar avaliativo que ela lhe lança, como se ele se tratasse de um inseto sob um microscópio. Sinto as mãos a suar e sei que devia estar a fugir, afinal esta é a minha oportunidade de não chegar muito tarde a casa, antes que ele dê pela minha falta, mas, por algum motivo, continuo parado no mesmo lugar, hipnotizado pela situação.

— Então, boneca, não dizes nada? O gato comeu‑te a língua, foi? Talvez eu te consiga ajudar com isso — continua.

Mais risos espalham‑se pelo ar e parecem percorrer o curto espaço que nos separa, rodeando‑me por todos os lados. Sinto o coração a querer fugir‑me pela boca e o suor a começar a escorrer‑me pelas costas, apesar do vento gélido que me abana o cabelo, mas a rapariga está impávida. Ela continua a olhar para o meu agressor, como quem tenta catalogar um inseto. Reparo como a sua posição muda de forma subtil, com os punhos a cerrarem‑se ao lado do seu corpo.

O João diminui toda a distância entre eles e passa um braço por cima dos ombros dela. Sustenho a respiração quando os seus olhos se arregalam quase de forma impercetível e o corpo se retesa. De forma lenta, ela vira‑se para o rapaz de cabelos ruivos, que ainda está sorridente, e finalmente fala.

— Não devias ter feito isso.

E depois?
O caos irrompe.

Chegaste ao fim? Precisas de saber mais?