Capítulo 1 – O Círculo

O suor escorre‑me pela testa e o meu coração bate mais rápido do que as asas de um colibri quando me desvio de mais um dos seus golpes. Sorrio quando vejo transpiração cair do homem careca à minha frente, de forma tão profusa que a sua pele parece ficar turva. Uma veia na sua testa pulsa e ele cerra os dentes antes de esticar o braço direito sem uma direção definida, num movimento imprudente. Abaixo‑me e aproveito a sua surpresa momentânea para fazer um arco com a perna, rodando‑a num movimento rápido. Ele cai para trás e vejo o seu peito subir e descer numa rápida sucessão.
— Três, dois, um! — conta o Tomás, antes de pegar na minha mão e a levantar, para que toda a gente perceba quem
ganhou.
Contenho a súbita necessidade de revirar os olhos. É mais do que óbvio que ganhei, afinal quem está estendido no chão não sou eu. Contemplo a multidão de forma desinteressada. Um monte de pessoas, a maioria rapazes, aglomerados à volta da pequena elevação à qual se chama carinhosamente de “O círculo”. Se é por estar desenhado um no chão a giz ou se por esse ser o antigo nome do bar, não sei, e acho que é dos mistérios que nunca vou desvendar.
O cheiro a álcool torna‑se quase insuportável. Cerveja, parece‑me, ainda que misturado com outro mais forte, um que não consigo identificar na confusão de odores do espaço. Álcool, suor e masculinidade tóxica nunca são uma boa mistura. Olho para lá da horda humana. Um homem está sentado atrás da mesa de madeira onde as pessoas podem levantar as apostas. A fila não é grande. Congratulo‑me mentalmente por isso. É o único motivo pelo qual continuo a aparecer aqui a cada duas semanas e a esperar sempre pela última luta. Quando eles já beberam o suficiente para se esquecerem de que me viram antes e para que o seu instinto masculino possa tomar conta. Afinal, qual é o homem que, depois de algumas bebidas, acha que uma rapariga de 19 anos consegue lutar melhor do que um deles?
— Hora de sair do ringue, Maia — segreda‑me o Tomás ao ouvido, fazendo‑se ouvir por cima dos grunhidos de desaprovação que a multidão está a produzir por terem perdido o dinheiro das apostas.
Dou um aceno curto para lhe dar a entender que percebi, e ele repete o meu gesto antes de começar a andar à minha frente rumo à estreita passagem protegida por redes de arame. Chamo‑lhe de “ponte”, o sítio que liga o caos lá de fora à segurança cá de dentro. A seguir ao círculo de giz, é o meu sítio favorito daqui.
Passamos pela ponte, enquanto jovens enfurecidos com copos coloridos na mão me vaiam. As palavras deles não me afetam — na verdade, raramente me deixo afetar pelo que quer que seja, mas isso não significa que não as ouça e não saiba o que são.
— Sua cabra, de certeza que lhe puseste alguma coisa na bebida! — grita um do meu lado direito.
— Queres explicar como é que ele perdeu tanta energia antes de ir para o ringue?! — berra outro do lado esquerdo.
Não quero nem tentar perceber o que aquilo quer dizer, mas a minha mente é mais rápida e começa a projetar imagens desagradáveis. Mantenho a expressão impassível. Não há nada que me possam dizer que seja pior do que o que ele alguma vez falou. Não sei porquê, mas isso traz‑me uma sensação de paz que faz com que aquele momento passe mais depressa. O Tomás abre a porta de madeira escura. É difícil para um olhar destreinado dar com ela, porque foi construída para se fundir com a parede. Quando a fecha, o barulho de fora cessa quase de imediato. É impossível não agradecer silenciosamente.
— As coisas lá fora estavam um bocado… hum… fora de controlo — diz o Tomás para preencher o silêncio.
Ergo uma sobrancelha. Aquela pode ser considerada uma definição de eufemismo. Na verdade, não é nada que me surpreenda. Os homens têm sempre esta maneira quase encantadora de desculparem ou menosprezarem o comportamento uns dos outros. Quase como se a culpa da sua conduta não fosse bem deles, mas sim de alguma entidade que possuía os seus corpos durante aqueles momentos.
Porém, sei a verdade. As pessoas são responsáveis pelas suas próprias ações. Da mesma forma que ele também foi
responsável por tudo o que me fez, destruindo a minha vida e qualquer possibilidade de felicidade.
Aceno com a cabeça de forma aparentemente distraída para não termos de alongar o assunto. Olho para as familiares paredes cinzentas, já com a pintura a descascar, enquanto o silêncio se prolonga entre nós. Fazemos sempre esta dança estranha em que ele tece algum tipo de comentário inócuo sobre a noite e eu concordo, antes de passarmos ao que realmente nos traz aqui. Depois do que parece ser uma eternidade, ouço o fecho do bolso do seu casaco a abrir e o barulho do elástico a ser retirado do maço de notas. Encaro a lâmpada fraca poucos centímetros acima de nós e franzo o sobrolho quando a vejo a baloiçar. Talvez alguma janela partida que esteja a fazer uma corrente de ar? Mesmo assim, parece me estranho, porque não sinto nenhuma…
— Está aqui — declara com a voz rouca, o que me faz encará‑lo.
Ele está com a mão direita estendida na minha direção. Um grande volume de notas assoma. Sorrio internamente. Aquilo vai dar para chegar ao fim do mês com o Ivan. Estico o braço para lhes pegar e ele roça a sua mão na minha ao entregar‑mas, de forma aparentemente inocente. Cerro os dentes e apresso‑me a tirar a mão dali. Toques não. Nada de toques.
— Quando tiver mais informações sobre a próxima luta, informo‑te — afirma, deixando passar a minha reação.
— OK — respondo, enquanto conto rapidamente as notas, antes de as guardar num dos inúmeros bolsos das calças.
O silêncio prolonga‑se mais uma vez entre nós. Bato com o pé no chão, um hábito que ganhei desde que me tornei especialista em guardar as coisas para mim. O som ecoa pelo espaço, juntamente com o da lâmpada que zumbe no teto. Vejo o Tomás a mudar o peso de perna.
— Estava a pensar que talvez pudéssemos ir beber — sugere.
— Está a ficar tarde, tenho de voltar para casa — interrompo‑o, antes que se possa alongar mais.
Ele franze o sobrolho.
— Quem sabe para a próxima, então — responde com um aceno pouco convencido.
— É, quem sabe. — Nem agora, nem nunca, Tomás.
Como ele não se mexe, começo a caminhar para a esquerda até à tira de madeira com pregos enferrujados. Eles fazem‑se passar por ganchos improvisados, e aproveito para pegar na mala e no casaco de couro preto. Visto‑o rapidamente e retiro da mochila pequena um elástico para prender a trança num coque, antes de a pôr atrás das costas. Volto a encarar o Tomás, que se encontra parado no mesmo sítio a observar‑me.
Quando percebe que está a ser inconveniente, clareia a garganta.
— Até à próxima, então. — Sai pela porta que nos trouxe até aqui e ouço por breves instantes o rugido da multidão lá fora, provavelmente impaciente com o início da próxima luta.
Ponho uma mecha de cabelo rebelde atrás da orelha, antes de começar a andar no sentido da saída pelo chão coberto de beatas de cigarro e poças de água estagnada. Faço uma careta face ao cheiro que me revira o estômago e aperto o casaco em redor do torso, enquanto uma brisa forte varre a rua, levantando algumas folhas coloridas de outono, visíveis graças à luz de um candeeiro próximo.
Tiro o maço de cigarros que anda sempre comigo do bolso do casaco e acendo um, vendo o fumo a subir quando dou uma baforada. Não é o melhor dos hábitos. Na verdade, uma parte de mim odeia que isto me dê uma espécie de paz momentânea, afinal isto era uma rotina dele, não minha.
Um gemido de dor interrompe a direção dos meus pensamentos. Dou mais alguns passos para a frente e olho de
um lado para o outro à procura da origem do som. Ouço um ruído alto de pontapés, antes do barulho de algo pesado a embater contra o metal, fazendo‑o ecoar pelo parque de estacionamento. Olho em frente de forma súbita e estreito os olhos. Mesmo à distância, consigo ver um grupo de rapazes a fechar‑se em redor de alguém.
Deixo cair o cigarro no chão e começo a correr.